Por que tiveram sucesso os primeiros cristãos?

Faz uns anos, quando eu comecei a estudar os escritos dos primeiros cristãos, meu interesse primordial era seguir o desenvolvimento histórico da doutrina cristã. Comecei a tarefa como estudante da história. Não se me ocorreu que o que ia ler me inspiraria e me mudaria. Mas não resultou como eu tinha pensado.Cedo o depoimento e a vida dos primeiros cristãos me comoveram profundamente. “Isso é o que significa a entrega total a Cristo”, disse entre mim. Entre meus colegas cristãos,muitos me tiveram como cristão com uma entrega a Cristo mais do que ordinária. Deu-me pena dar-me conta de do que na igreja primitiva me tivessem tido por cristão débil, comum pé no mundo.

Quanto mais lia, mais me encheu o anseio de desfrutar a comunhão com Deus do que os primeiros cristãos desfrutavam.Quanto desejava eu poder desfazer-me dos afãs deste mundo como eles tinham feito. Quanto desejava moldar minha vida e minhas atitudes de acordo ao exemplo de Cristo—não de acordo ao mundo do século vinte. Mas sentia que não tinha nenhum poder para fazê-lo. Por que podiam eles fazer o que eu não podia fazer?Comecei a procurar a resposta a esta pergunta em seus escritos. Pouco a pouco vi três pontos:

•O apoio dos irmãos da igreja primitiva

•A mensagem da cruz

•A crença que o homem compartilha com Deus a responsabilidade para a obediência

Como a igreja primitiva fomentou o desenvolvimento espiritual de cada cristão

“Nenhum homem é uma ilha”,1 escreveu o poeta inglês do século décimo sexto. Os homens somos por natureza seres sociáveis.Por isso nos é tão difícil opor-nos à corrente de nossa cultura. Mas outros o fizeram. A verdade é que muitas pessoas recusaram os valores e o estilo de vida de sua cultura. Temos um bom exemplo disto no movimento “hippie” da década setenta. Nesses anos, milhares de jovens a maioria deles da classe média—recusaram o materialismo e as modas da sociedade e seguiram outro caminho.Por que estes jovens puderam romper com a sociedade e separar se a seu estilo de vida? A resposta a entendemos quando nos damos conta de que não eram em realidade inconformistas. Singelamente se conformavam a outra cultura que eles mesmos criaram. E todos se apoiavam os uns aos outros.Isto era um dos segredos dos primeiros cristãos. Eles conseguiram recusar as atitudes, práticas e diversões ímpias de sua cultura porque se conformaram a outra cultura. Milhares e milhares de cristãos se uniram e todos compartilharam os mesmos valores, as mesmas atitudes, e as mesmas normas para a diversão. Tudo o que o cristão individual tinha que fazer era conformar-se. Conformava-se com o corpo de crentes. Sem o apoio da igreja primitiva, tivesse sido bem mais difícil manter uma vida piedosa.

Cipriano observou: “Corta um ramo da árvore, e já não poderá brotar mais. Corta o riacho de seu manancial, e cedo se secará.”2.

Mas os primeiros cristãos não trataram de legislar a justiça, ainda que muitos grupos cristãos desde então trataram de fazê-lo.Ao invés, dependeram do ensino são e do exemplo de retidão para produzir a justiça. Os grupos religiosos que dependem só de muitas normas detalhadas para produzir a santidade pessoal possam resultar produzindo mais bem o farisaísmo . Por isso, a igreja primitiva destacou a necessidade de mudar começando desde o coração. Consideravam que o externo nada valia, a não ser que refletisse o que sucedia dentro da pessoa.

Clemente o explicou desta forma: “Deus não coroa àqueles que se abstêm do mau só por obrigação. É impossível que uma pessoa viva dia depois de dia de acordo à justiça verdadeira exceto de sua própria vontade. O que se faz ‘justo’ sob obrigação de outro não é justo em verdade… É a liberdade de cada pessoa a que produz a verdadeira justiça e revela a verdadeira maldade.”3.

Por exemplo, apesar do ensino da igreja primitiva a respeito do vestir singelo, não exigiram que o cristão individual se vestisse de uma maneira especial ou distintiva. E os primeiros cristãos não todos se vestiram igual. Ainda que os primeiros cristãos se opuseram aos cosméticos, não todas as mulheres cristãs deixaram de usá-los. Outros cristãos passaram por alto o conselho dos anciãos da igreja primitiva e assistiram ao teatro e à areia E a igreja não os castigou por sua desobediência. No entanto, o método da igreja dava resultado. Ainda os mesmos romanos testemunhavam que a maioria dos primeiros cristãos seguiram as guias da igreja em tais assuntos.4.

De fato, a igreja primitiva pode ensinar por meio do exemplo eficazmente só se a mesma igreja se conformou aos ensinos de Cristo. De outra maneira, o exemplo da igreja primitiva serviria de tropeço e não de ajuda. Por exemplo, qual seria a atitude dos demais cristãos hoje para um que se fizesse deveras pobre para ajudar a outros? Ou para um que se vestisse com toda singeleza e modéstia, sem tomar em conta a moda? Ou que não mostrasse nada de interesse nos esportes violentos da atualidade Ou que recusasse olhar a televisão e assistir aos cinemas quando estes se concentram na imoralidade ou quando recebem seu picante de palavras indecentes e violência gráfica? Sejamos honrados. ¡Tal pessoa seria tida por fanático!Agora mais, se um grupo inteiro de cristãos vivesse desta maneira provavelmente se lhes qualificaria como uma seita muito rara.Em fim, a igreja do século vinte veria a tais cristãos da mesma maneira que os romanos viam aos primeiros cristãos.Se o cristão atual vivesse como os primeiros cristãos, teria que ser em verdade um inconformista. E volto a dizer que é muito difícil ser um inconformista.

Pastores da igreja primitiva , graduados da escola da vida

A entrega a Cristo de todos os primeiros cristãos da igreja primitiva reflete a qualidade de seus líderes.A maioria das igrejas evangélicas de hoje em dia estão governadas por um pastor em união com uma junta de anciãos e uma junta de diáconos. Normalmente, o pastor teve sua preparação profissional ou até recebeu seu título de seminário,mas não foi criado na igreja que o chama a ser pastor. Com freqüência não tem nenhum poder de governar na igreja exceto o poder da persuasão.

A junta de anciãos ou a de diáconos, pelo geral, forma-sede homens que trabalham uma jornada completa em empregos seculares. Administram os programas e os assuntos financeiros da igreja e muitas vezes fixam até a política da igreja. Mas de costume ninguém corre a eles para receber conselhos espirituais.Não são os pastores do rebanho espiritual.Sim, usamos os mesmos nomes para os líderes da igreja como os que usavam os primeiros cristãos. Falamos de ancião se de diáconos. Mas em realidade o método de governar nossas igrejas difere muito do método das igrejas primitivas. Em vez de ter um pastor preparado profissionalmente,entre eles os anciãos todos eram pastores que dedicavam seu tempo à obra da igreja. O ancião maior de idade ou talvez o mais capacitado servia como o presidente dos anciãos.Geralmente se lhe chamava o bispo ou o supervisor da congregação Nem o bispo nem os anciãos eram desconhecidos,trazidos à congregação de outra parte. Normalmente tinham passado muitos anos na congregação. Todos conheciam seus pontos fortes e também seus pontos magros.

Ademais, não se preparavam para servir como bispos ou anciãos por meio de estudar num instituto bíblico ou seminário, enchendo suas cabeças de ciência. A congregação não procurava tanto uma ciência profunda senão uma espiritualidade profunda. Viviam cerca de Deus Tinham dado já por anos um bom exemplo a outros cristãos? Estavam dispostos até a dar sua vida por Cristo?Como Tertuliano disse aos romanos: “Nossos anciãos são homens provados. Obtêm sua posição não por um salário, senão por firmeza de caráter.”5.

Naquele tempo não tinha seminários. Um homem aprendia o necessário para servir como ancião na escola da vida.Recebia sua preparação dos anciãos com mais experiência.Aprendeu como estar com Deus e pastorear na igreja por observar e imitar seu exemplo. Recebeu a experiência prática guiado por eles, e não teve que fazer tudo perfeitamente. Tinha que ser capaz de ensinar por meio de seu exemplo tanto como por meio de sua palavra. De outra maneira não seria chamado jamais para ser ancião ou bispo.

Lactâncio explicou a diferença entre os maestros cristãos e os pagãos assim:

“Falando daquele que ensina os fundamentos da vida e molda a vida de outros, faço a pergunta: ‘Não é necessário que ele mesmo viva de acordo com os fundamentos que ensina?’ Se não vive de acordo com o que ensina, seu ensino resulta nula… Seu aluno lhe contestará assim: ‘Não posso fazer o que você me ensina,porque é impossível. Ensina-me a não me enojar. Ensina-me a não cobiçar. Ensina-me a não olhar de luxo. Ensina-me a não temer o sofrimento e a morte. Mas tudo isto está muito contrário à natureza Todos os homens sentem estes desejos. Se você está convicto de que é possível viver contrário aos desejos naturais, primeiro permita-me ver seu exemplo para que eu saiba que em verdade é possível.’…Como poderá [o maestro] tirar este pretexto dos obstinados, a não ser com seu exemplo? Só assim poderão seus alunos ver com seus próprios olhos que o que ensina é em verdade possível. É por isso mesmo que ninguém vive de acordo com os ensinos dos filósofos. Os homens preferem o exemplo a só palavras, porque fácil é falar—mas difícil atuar.”6.

Numa de suas cartas, Cipriano descreve a maneira em que as igrejas primitivas escolhiam a um ancião ou bispo novo: “Será escolhido na presença de todos, sob a observação de todos, e será provado digno e capaz pelo juízo e depoimento de todos…Para ter uma ordenação apropriada, todos os bispos das demais igrejas da mesma província devem reunir-se com a congregação. O bispo deve ser escolhido na presença da congregação já que todos conhecem a fundo sua vida e seus hábitos.”7.

Uma vez escolhido um ancião ou bispo, pelo geral ficava nessa congregação por toda sua vida, a não ser que a perseguição lhe obrigasse a transladar-se a outra parte. Não servia uns três ou quatro anos só para transladar-se a outra congregação maior onde lhe podiam pagar melhor. E como disse anteriormente, não só o bispo senão bem mais todos os anciãos dedicavam todo seu tempo a seu trabalho como pastor e mestre. Dedicavam-se totalmente ao rebanho. Esperava-se do que deixassem qualquer outro emprego, a não ser que a congregação fora muito pequena como para sustentá-los.

Temos cópias de várias cartas enviadas entre duas congregações quando surgiu a pergunta de que fazer quando um ancião foi nomeado como executor testamentário no testamento de um cristão defunto. Sob a lei romana, não tinha saída para o que foi nomeado como executor testamentário.Tinha que servir, quisesse ou não quisesse. E o trabalho podia exigir muito tempo. O ancião que escreveu a carta se escandalizou de que um cristão nomeasse a um ancião como executor testamentário, porque esses deveres lhe tirariam o tempo de sua obra como pastor. De fato, todos os anciãos se escandalizaram.8.

Imagine-se o cuidado espiritual que receberam os primeiros cristãos de seus pastores. Em cada congregação de então tinha vários anciãos cuja única preocupação era o bem-estar espiritual de sua congregação. Com tantos pastores trabalhando o tempo todo na congregação, cada membro sem dúvida recebeu o máximo de atendimento pessoal.

Mas para servir como ancião ou bispo na igreja primitiva,um homem tinha que estar disposto a deixá-lo tudo por Cristo. O primeiro que deixava era suas posses materiais. Deixava seu emprego e o salário com que sustentava a sua família. E não o deixava para depois receber um bom salário da congregação. De jeito nenhum. Só os hereges pagavam um salário a seus bispos e anciões. Nas igrejas primitivas os anciãos recebiam o mesmo que recebiam as viúvas e os órfãos. Usualmente, recebiam as coisas necessárias para a vida, e muito pouco mais.9.

Mas sacrificavam esses anciãos mais do que só as coisas materiais do mundo. Tinham que estar dispostos de ser os primeiros em sofrer encarceramentos , torturas, e até a morte.Muitos dos escritores que cito neste livro eram anciões ou bispos, e mais da metade deles sofreram o martírio: Ignácio,Policarpo, Justino, Hipólito, Cipriano, Metodio, e Orígenes s.Com tal entrega de parte de seus líderes, não é difícil ver por que os cristãos ordinários dessa época se dedicaram a estar com Deus e a evitar a norma do mundo.

Os Primeiros cristãos Um povo da cruz

Ninguém quer sofrer. Faz pouco li um relatório da opinião do povo americano a respeito do déficit nacional. Quase todos os quedavam sua opinião desejavam que se rebaixasse o déficit. Mas ao mesmo tempo,o 75 por cento se opuseram a qualquer aumento dos impostos ou a qualquer rebaixa dos gastos. Em outras palavras, queriam rebaixar o déficit sem sofrer.

¡Sem sofrer! Também desejamos um cristianismo que não requer sofrimento. Mas Jesus disse a seus discípulos: “O que não toma sua cruz e segue em por trás de mim, não é digno de mim. O que acha sua vida,a perderá; e o que perde sua vida por causa de mim, a achará”(Mateus 10.38-39). Apesar destas palavras do Senhor, não muitos querem falar hoje da cruz. Quando pregamos o evangelho aos incrédulos, rara vez falamos das palavras de Cristo a respeito de tomar cada pessoa sua cruz. Ao invés, deixamos a impressão que depois de aceitar a Cristo, a vida será para sempre um deleite.

Na igreja primitiva, os crentes ouviram outra mensagem: ser cristão os envolveria em sofrimento. São típicas as seguintes palavras de Lactâncio: “O que escolhe viver bem na eternidade,viverá na desconforto aqui. Será oprimido por muitas classes de problemas e cargos enquanto viva no mundo, para que no fim receba a consolação divina e celestial. Da outra maneira, o que escolhe viver bem aqui, sofrerá na eternidade.”10 Jesus tinha feito um contraste parecido entre o caminho estreito e estreito que conduz à vida, e o caminho largo e espaçoso que conduz à destruição (Mateus 7.13-14).

Ignácio, bispo de Antioquia e um colega do apóstolo João,foi preso por seu depoimento cristão. Enquanto viajava rumo a Roma para seu juízo e martírio, escreveu cartas de ânimo e exortação várias congregações cristãs. A uma congregação escreveu: “Por tanto, é necessário não só que um seja chamado cristão, senão que seja em verdade um cristão… Se não está disposto a morrer da mesma maneira em que morreu Cristo, a vida de Cristo não está em ele”11 (João 12.25). A outra escreveu: “Que tragam o fogo e a cruz. Que tragam as feras. Que rompam e se desloquem meus ossos e que cortem os membros de meu corpo.Que mutilem meu corpo inteiro. Em verdade, que tragam todas as torturas diabólicas de Satanás. ¡Que permitam só que alcance a Jesus Cristo… Quisesse morrer por Jesus Cristo mais bem do que reinar sobre os fins do mundo inteiro.”12 Poucos dias depois de escrever estas palavras, Ignácio foi levado ante um gentio que gritava na areia de Roma, onde lhe despedaçaram as feras.

Quando um grupo de cristãos de sua congregação se apodreciam numa masmorra romana, Tertuliano os exortou com estas palavras: “Benditos, estimem o difícil em sua vida como uma disciplina dos poderes da mente e do corpo. Cedo vão passar por uma luta nobre, na qual o Deus vivente é seu gerente e o Espírito Santo seu treinador. O prêmio é a coroa eterna de essência angélica—cidadania no céu, glória sempiterna.”Também lhes disse: “O cárcere produz no cristão o que o deserto produz no profeta. Ainda nosso Senhor passou muito tempo a sós para que tivesse maior liberdade na oração e parado que se afastasse do mundo… A perna não sente a corrente quando a mente está no céu.”13.

Mas a maioria dos crentes não precisavam nenhuma advertência sobre o que pudessem ter que sofrer. Eles mesmos o tinham visto. Em verdade, isto mesmo—o exemplo de milhares de cristãos que suportavam o sofrimento e a morte antes de negara Cristo—chegou a ser um dos métodos mais poderosos do evangelismo.

Em sua primeira apologia, Tertuliano recordou aos romanos que sua perseguição servia só para fortalecer aos primeiros cristãos. “Entre mais nos persigam vocês, mais crescemos nós. O sangue dos cristão sé uma semente… E depois de meditar em isso,quem terá entre vocês que não quisesse entender o segredo dos cristãos E depois de inquirir, quem terá que não abrace nosso ensino? E quando a tenha abraçado, quem não sofrerá a perseguição de boa vontade para que também participe da plenitude da graça de Deus?”14.

Hoje há quem falam do “evangelho completo”. Para eles isto significa ser “pentecostal” ou “carismático”. Não obstante, um dos problemas em nossas igrejas hoje é que quase nunca ouvimos a pregação do evangelho completo—sejamos ou não sejamos carismáticos. Ouvimos só das bênçãos do evangelho; poucas vezes ouvimos a mensagem de sofrer por Cristo.

Estamos tão afastados da mensagem da igreja primitiva que nem sequer entendemos o que significa sofrer por Cristo. Faz poucos anos escutei um sermão sobre o seguinte versículo em 1 Pedro4.16: “Mas se algum padece como cristão, não se envergonhe,senão glorifique a Deus por isso”. O pastor comentou que a maioria dos cristãos não têm nenhum conceito do que significa padecer como cristão.

Depois do culto, eu estava falando com o pastor quando um diácono se acercou e agradeceu ao pastor pela mensagem. Disse que esteve de acordo que muitos cristãos não entendem o que significa sofrer por ser cristãos. No entanto, prosseguiu dizendo que ele o entendia exatamente. E depois descreveu a dor e o sofrimento que ele tinha experimentado fazia uns anos quando teve uma cirurgia. Ao sair da igreja, me maravilhe de quão exatamente o diácono tinha ilustrado o ponto de que o pastor tinha falado. Em verdade não entendemos o que significa sofrer por ser cristãos. Cremos que quando suportamos as tribulações comuns que qualquer pessoa pode passar, isso é sofrer por Cristo.Claro, há maneiras de levar nossa cruz mais do que só suportar a perseguição. Clemente comentou que para alguns cristãos a cruz pode representar o suportar o casal comum cônjuge incrédulo, ou obedecer a pais incrédulos, ou sofrer como um escravo sob um amo o pagão. Ainda que tais situações pudessem trazer muito sofrimento, tanto emocional como físico, não são nada em comparação para aquele que se preparou para suportar a tortura e até a morte por Cristo (Romanos 8.17;Apocalipse 12.11).

Ainda que os primeiros cristãos suportavam casais difíceis com incrédulos, milhares de cristãos hoje se divorciam de seus cônjuges crentes sem pensar, só porque seu casal tem algumas falhas. Tais pessoas preferem desobedecer a Cristo antes de suportar um sofrimento temporário. Vários cristãos me disseram que já não suportavam mais viver com seu cônjuge porque tinham discussões todos os dias. Pergunto-me que resposta darão tais pessoas no dia do juízo final quando se encontram ante mulheres e homens cristãos dos primeiros séculos que puderam suportar do que se lhes sacassem os olhos com ferros incandescentes, ou que se lhes arrancassem os braços do corpo, ou que se lhes degolassem vivos.Por que aqueles primeiros cristãos tinham poder para suportar semelhantes torturas terríveis, e a nós nos falta o poder para agüentar sequer um casal difícil? Talvez é porque não aceitamos nossa responsabilidade de levar a cruz.

Faz uns anos, uma mulher cristã contemplava divorciar-sede seu marido porque não podiam levar-se bem. Com os olhos cheios de lágrimas, disse-me: “Eu não quero viver desta forma o resto de minha vida”. Depois, reflexionei em suas palavras: “o resto de minha vida”. Pensei também nas ocasiões em que eu tinha usado as mesmas palavras. Estas palavras revelaram um pouco de mim: o céu não me era uma realidade, pelo menos não como a vida na terra. Os primeiros cristãos aceitaram a mensagem de sofrer por Cristo porque seus olhos estavam postos na eternidade. Não pensavam em sofrer “o resto de sua vida”. Pensavam em sofrer não mais de uns cinqüenta ou sessenta anos. ¡E o resto de sua vida a passariam na eternidade com Jesus! Comparadas com semelhante futuro, as tribulações do presente pareciam insignificantes. Como Tertuliano, souberam que “a perna não sente a corrente quando a mente está no céu”.

Somos os homens capazes de obedecer a Deus?

Os primeiros cristãos não tentaram viver tais vidas piedosas sem a ajuda de Deus. Sabiam que eles mesmos não tinham o poder necessário. De fato, todos entendemos isto. E os cristãos, de qualquer denominação, através dos séculos sempre souberam que precisavam do poder de Deus para poder obedecer a seus mandamentos.

Suponho que ninguém que decidiu servir a Deus exclui a propósito a ajuda de Deus de sua vida. No entanto, o que sucede com freqüência pode ser algo semelhante ao seguinte: Ao princípio,andamos cerca de Deus, dependendo de seu poder. Mas com o tempo começamos a deslizar-nos e afastar-nos de Deus.Geralmente, este processo começa no coração; por fora atuamos o mesmo. Ainda que atuamos como se dependêssemos de Deus nossas orações se voltam formais. Lemos as Escrituras, mas nossa mente está pensando em outras coisas. Ao fim, achamos que estamos dependendo do tudo em nossa própria força.

O problema não está em que a igreja não prega a respeito da necessidade de depender de Deus. Em verdade, muitos cristãos evangélicos ensinam que não somos capazes de fazer nada bom por nós mesmos. Mas se nós singelamente não podemos obedecer a Deus, nada podemos fazer a respeito de nossas desobediências exceto orar a Deus para que nos faça pessoas obedientes. Mas em verdade, serve isso?

Eu recordo minha emoção quando pela primeira vez ouvi um ser mão que explicou que não somos capazes de fazer nada bom por nosso próprio poder, que só Deus pode fazer o bom através de nós. Nós somente temos que pedir a Deus que melhore nossas falhas e vença nossos pecados. “Ah, esse é o segredo”, disse entre mim. Não podia esperar para levar essa idéia à práticas igualmente deixando que Deus mudasse minhas falhas e tirasse meus pecados. Orei de coração que Deus fizesse isso mesmo.Entreguei-o tudo a Deus. Depois me pus a esperar. Mas nada passou. Orei mais. Mas não teve nenhuma mudança.

Ao princípio cria que o problema era só meu. Eram sinceras minhas orações? Ao fim falei privadamente com outros cristãos do assunto e me dei conta de que não era só meu o problema. Outros não tinham obtido melhores resultados que os meus.

—Então por que vocês dizem sempre que Deus milagrosamente tira nossas falhas e nos faz pessoas obedientes? —lhes perguntei.

—Porque assim deve de ser —me contestaram.

Então soube que muitos cristãos tinham temor de expressar-se e admitir que esse ensino não produzia resultados.Temiam que só para eles não servia, e que todos os demais tinham achado grande bênção por meio de suas orações. Temiam o que outros pudessem dizer, e ficaram calados, não expondo seus fracassos e frustrações.

Não posso dizer que ninguém jamais recebesse ajuda ao só orar e esperar do que Deus lhe mudasse. O que sim digo que para mim não me serviu, e na história da igreja primitiva não serviu também não. Esta doutrina tem sua origem em Martín Lutero. O ensinou que somos completamente incapazes de fazer algo bom, que tanto o desejo e o poder de obedecer a Deus vêm só de Deus. Estas eram doutrinas fundamentais da reforma em Alemanha, mas não produziram uma nação de cristãos alemães, obedientes e piedosos. Em verdade, produziram tudo o contrário. A Alemanha de Lutero chegou a ser uma sentina de borracheira, imoralidade e violência. O esperar passivo que Deus fizesse não produziu nem uma igreja piedosa nem uma nação piedosa.15.

Os primeiros cristãos ensinaram tudo o contrário. Nunca ensinaram que o homem é incapaz de fazer o bom ou de vencer o pecado em sua vida. Eles criam que bem podemos servir a Deus e obedecer-lhe. Mas primeiro falta que tenhamos um amor profundo por Deus e um respeito profundo por seus mandamentos. Assim o explicou Hermes: “O Senhor tem que estar no coração do cristão, não somente sobre seus lábios.”16 Ao mesmo tempo, os primeiros cristãos nunca ensinaram que um possa vencer todas suas debilidades e seguir obedecendo a Deus dia depois de dia só em seu próprio poder. Sabiam que lhes faltava o poder de Deus. Mas eles não esperavam calmos enquanto Deus, pretensamente, fazia toda a obra neles.

Eles creram que nosso estar com Deus é obra de ambos partidos. O cristão mesmo tem que estar disposto a sacrificar-se pondo toda sua força e toda sua alma à obra. Mas também precisava depender de Deus. Orígenes s o explicou assim:“Deus se revela àqueles que, depois de dar tudo o que possam,confessam sua necessidade de sua ajuda”.17.

Os cristãos dos primeiros séculos criam que o cristão tinha que almejar fervente mente a ajuda de Deus, e procurá-la. Não só tinha que pedir a Deus sua ajuda uma vez, tinha que persistir em pedir-lhe Clemente ensinou a seus alunos: “Um homem que trabalha só para libertar-se de seus desejos pecaminosos nada consegue. Mas se ele manifesta seu afã e seu desejo ardente disso, atinge-o pelo poder de Deus. Deus colabora com os que almejam sua ajuda. Mas se perdem seu anseio, o Espírito de Deus também se restringe. O salvar ao que não tem vontade é um ato de obrigação, mas o salvar ao que sim tem vontade é um ato de graça.”18.

Assim vemos que entenderam que a justiça resulta da obra mútua, a do homem e a de Deus. Há poder sem limite de parte de Deus. A clave está em poder utilizar esse poder. O anseio fervente tem que nascer do mesmo cristão. Comentou Orígenes s sobre isso, que não somos objetos de madeira que Deus move a seu capricho.19 Somos humanos, capazes de almejar a Deus e de responder-lhe a ele. E ao referir-se a esse anseio nosso, Clemente não se referia a um anseio singelo. Bem mais, ele disse que temos que estar dispostos a sofrer “perseguições interiores”. O mortificar a nossos desejos carnais não vai ser fácil, e se não estamos dispostos a sofrer no coração, lutando contra nossos pecados, Deus não vai brindar-nos o poder de vencer os. 20(Romanos 8.13; 1 Coríntios 9.27).

Algumas pessoas poderão molestar-se por este ensino dos primeiros cristãos. Mas como disse Jesus: “Ainda que não me criais a mim, crede às obras” (João 10.38). Antes de menosprezar o ensino daqueles cristãos, temos que propor outra boa explicação de seu poder. Não podemos negar o fato de que tinham um poder extraordinário. Ainda os romanos pagãos tinham que admitir isso. Como Lactâncio declarou: “Quando a gente vê que há homens lacerados de várias classes de torturas, mas sem perseguem indomados ainda que seus verdugos se fatigam, chegam a crer que o acordo entre tantas pessoas e a fé invencível dos moribundos sim tem significado. [Se dão conta de] que a perseverança humana por si só não poderia resistir tais torturassem a ajuda de Deus. Ainda os ladrões e homens de corpo robusto não pudessem resistir torturas como estas… Mas entrenós, os moços e as mulheres delicadas—por não dizer nada dos homens—vencem seus verdugos com silêncio. Nem sequer o fogo os faz gemer no mínimo… Estas pessoas—os jovens e o sexo débil—suportam tais mutilações do corpo e até o fogo ainda que tivesse para eles escape.Facilmente pudessem evitar estes castigos se assim o desejassem [ao negar a Cristo]. Mas o suportam de boa vontade porque confiam em Deus.”21.

Não vimos toda a história da igreja primitiva

Resumindo, a igreja de hoje pode aprender várias lições valiosas dos primeiros cristãos. Três fatores os punham em condições para viver como cidadãos de outro reino, como um povo de outra cultura: (1) A igreja os apoiava; (2) a mensagem da cruz; e (3) a crença que o homem tem que colaborar com Deus para poder atingir a santidade de vida.Eu tivesse podido terminar aqui este livro, e tivesse sido um retrato inspirador dos cristãos históricos. Mas em tal caso tivesse relatado só a metade da história. A história completa precisa dizer-se. Com tudo, advirto-lhe de antemão que o resto da história possa deixá-lo inquieto. A mim me deixou assim.

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