Perguntas sobre a não-resistência

Se você for como a maioria dos cristãos, todo este conceito de não-resistência e de amar os inimigos é provavelmente novo para você. E talvez esteja questionando: “Tudo bem, mas e se…?” Então, permita-me mencionar alguns dos “Tudo bem, mas e se…?” e outras perguntas que você possa ter.

E se alguém entrasse em sua casa para roubar e estivesse a ponto de lhe fazer dano a sua esposa e seus filhos? Certamente você não ficaria parado deixando-os fazerem o que quisessem!

Naturalmente, esta pergunta se aproveita do forte instinto protetor que os homens têm para os membros de sua família. Mas a resposta que um cidadão do reino deve dar a essa pergunta é a mesma que daria a qualquer outra pergunta que tenha a ver com violar os mandamentos de Jesus. Deixe-me perguntar para você: “E se seu governo lhe pedisse que negasse a Jesus Cristo e que oferecesse um holocausto a Satanás; caso contrário eles violariam sua esposa e matariam seus filhos? O que você faria?” Para um cidadão do reino, a resposta é muito clara. Jesus já nos disse que se amamos a nossos familiares mais do que a ele, não podemos ser seus discípulos. E ele também nos disse: “Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:33).

Pois bem, e se, em lugar de negar a Cristo, meu governo me ordenasse assassinar o vizinho da casa do lado ou violar a sua esposa? E se não o fizesse, eles fariam algum dano a minha esposa e a meus filhos. Seria diferente que negar a Cristo e oferecer um holocausto a Satanás? No primeiro caso, estaria negando a Cristo com minha boca. No outro, estaria negando-o por meio de meus atos.

E se um governo estrangeiro me ordenasse lançasse uma bomba sobre uma cidade do meu país ou assassinasse o presidente; caso contrário eles fariam dano a minha esposa e filhos? Que devo fazer? Acho que a maioria de pessoas permitiria que fizessem dano a suas mulheres e filhos, e até que os matassem, antes de trair a seu país.

Então, existe diferença quando se trata da lealdade a Jesus? Os ensinamentos de Jesus sobre a não-resistência são muito claros. É uma questão de negá-lo ou negar a minha família. De fato, é uma escolha muito difícil, mas eu já fiz essa escolha quando entreguei minha vida a Cristo.

Isto quer dizer que eu não faria nada para proteger a minha família? Claro que não. Já fiz o melhor que podia ter feito para garantir a sua segurança: Confiei meu lar e minha família ao cuidado e à proteção de Jesus. E não se trata de uma confiança ingênua. Há dezenas de milhares de outros cristãos do reino de Deus que mudaram suas espadas em arados e puseram a segurança de seus familiares em mãos de seu Rei. E mesmo que Jesus não prometeu que nunca sobrevirá nenhum dano a nossas famílias, posso dizer isto: que, exceto em tempos de perseguição religiosa, é muito raro que as famílias do reino de Deus sejam prejudicadas por delinquentes comuns.

Um exemplo que vem à minha mente é o encontro do perigoso delinquente fugitivo Stephen Roy Carr, com uma família menonita não-resistente em Pensilvânia em maio de 1988. Anteriormente, Carr tinha fugido da Flórida, onde era procurado por furto de grande valor. Por um tempo, esteve se escondendo nos Montes Apalaches, disposto a matar a qualquer que pusesse em risco sua liberdade. Pouco depois, encontrou-se com duas mulheres campistas no Appalachian Trail (Trilha dos Apalaches) e atirou em ambas; matou uma e feriu gravemente a outra.

Ao fugir daquele lugar, Carr encontrou uma bandeja de misturar concreto abandonada e usou-a para descer o riacho Conodoguinet até à granja de Chester e Esther Weaver. Como eram menonitas conservadores, a família Weaver não tinha televisão nem rádio e, portanto, não tinham escutado nada sobre o assassinato. O fugitivo Carr pediu à família Weaver comida e estadia, os quais eles lhe deram com satisfação. Carr permaneceu na casa da família Weaver durante cinco dias. No entanto, ele não machucou nem roubou ninguém. Carr teria ficado mais tempo, mas finalmente a polícia prendeu.1

A fé de carrinho de mão

Lembro-me do caso contado pelo autor e conferencista cristão, Winkey Pratney, sobre o Grande Blondin, um equilibrista incrivelmente dotado do século 19. Para demonstrar suas habilidades, Blondin estendeu uma corda de 340 metros acima das Cataratas do Niágara. Para a emoção das multidões, ele caminhou através das cataratas sobre aquela corda bamba, realizando acrobacias espetaculares. Na metade do caminho sobre a corda, Blondin inclusive deu um salto mortal para trás. Blondin não tinha nenhuma rede embaixo para salvá-lo se caísse.

Um repórter de um jornal que tinha vindo presenciar o espetáculo estava assombrado.

— Aposto que não há nada que você não possa fazer nessa corda bamba — disse a Blondin.

— Você acredita que eu poderia atravessar corda empurrando um carrinho de mão? — Blondin perguntou ao repórter.

— Oh, tenho certeza que sim.

— Acredita que eu poderia atravessar a corda enquanto empurro um carrinho de mão com um homem dentro dele? — Blondin perguntou de novo.

— Sem dúvida!

Então, olhando para o repórter fixamente, Blondin lhe perguntou:

— Acredita que eu poderia atravessar corda empurrando um carrinho de mão com você dentro?

— Bom, é…

Mas isso é o que é a fé autêntica: montar no carrinho de mão por causa de Cristo. Qualquer outro tipo de fé na realidade não é fé. São simplesmente palavras. A maioria dos cristãos aceita de boa vontade que Deus é Todo-poderoso. Eles proclamam que Deus controla o universo. Dizem que nada pode suceder fora da vontade permissiva ou ativa de Deus. Inclusive, põem frases no para-choque de seus veículos que dizem: “Seus anjos velam por mim!” Mas não, eles não montam no carrinho de mão. Eles não confiam a segurança de suas famílias nas mãos de Deus.

Infelizmente, a cada ano muitas famílias cristãs sofrem mortes e lesões em consequência de suas próprias armas porque não depositaram sua confiança em Deus. Um dos episódios mais consternadores ocorreu alguns anos atrás quando um homem e sua mulher voltavam de uma viagem. Sua filha estava ficando na casa de um amigo da família. No entanto, a filha pensou em fazer uma surpresa a seus pais e decidiu entrar na casa mais cedo e se esconder no guarda-roupa do quarto de seus pais. Quando seus pais entraram, escutaram um barulho no guarda-roupa. Pensando que era um ladrão, seu pai sacou sua pistola carregada e se aproximou do armário lentamente. Quando a porta do armário se abriu inesperadamente, instintivamente o pai apertou o gatilho. Imediatamente se deu conta de que era sua filha, mas era tarde demais. Ela murmurou: “Te amo, papai”, e caiu morta.

Este não foi um acontecimento pouco comum. É mais vinte e duas vezes provável que uma arma no lar mate um familiar ou um amigo do que um intruso.2 O mal pode ser confrontado com métodos menos perigosos do que armas.

Há alguns anos, uns cristãos amigos meus, Decio e Olivia, estavam hospedados num hotel em Atlanta. Na cidade haviam ocorrido alguns assaltos à mão armada e assassinatos. Os assaltantes ordenavam a suas vítimas se estendessem de bruços no chão e depois lhes atiravam na cabeça. De maneira que Decio estava prevenido.

Era uma noite amena de outubro, e Decio e Olivia tinham deixado aberta momentaneamente porta de seu quarto porque esperavam um amigo. De repente, dois delinquentes adolescentes e com armas apareceram na porta. Eles ordenaram a todos que se deitassem no piso. Decio hesitou e depois se ajoelhou, orando e tentando pensar numa maneira de frustrar o roubo.

Sua esposa, Olivia, achando que era uma travessura na véspera do Halloween, ficou sentada na cama. Então um dos ladrões jovens apontou com sua arma e lhe ordenou que se deitasse no chão. Em vez disso, ela começou a cantar em voz alta “Cristo me ama”, ao passo que saía da cama e caminhava lentamente na direção dos dois jovens. Um deles levantou sua pistola, a apontou para o rosto, e a carregou. Mas ela continuou cantando e se aproximando dele. De repente o jovem gritou para o comparsa: “Estes são um casal de loucos por Cristo! Vamos embora daqui!” E dizendo aquilo, os dois jovens desapareceram na escuridão.

Através dos anos, tenho escutado e lido muitas outras histórias de como uma oração, um hino, ou um testemunho desarmou de maneira eficaz a ladrões ou assaltantes. Não faz sentido cantar “Deus Tremendo”, se na realidade não achamos que ele o seja.

P. “Mas, e quanto a Hitler?”, perguntam-me com frequência.

Na realidade, essa é minha pergunta para os cristãos que recusam a não-resistência: “Mas, e quanto a Hitler?” Porque se todos os cristãos tivessem praticado o que Jesus ensinou, Hitler não teria sido capaz de fazer as coisas que fez. Por quê? Porque a maioria dos soldados no exército de Hitler eram cristãos confessos. Eles se tinham alistado voluntariamente ou tinham sido recrutados pelo exército alemão, e se encontravam servindo a seu país tal como os soldados cristãos britânicos e norte-americanos que lutavam contra eles. Se os cristãos tivessem permanecido fiéis aos mandamentos de Jesus, o mal de Hitler nunca teria sucedido. Ele teria contado com poucos soldados para levar a cabo seus planos.

Se todos os cristãos se apegassem aos ensinos de Jesus, talvez não houvesse guerras. Este não é um sonho infundado. A Pax Romana assim o demonstrou. A Pax Romana é o nome dado pelos historiadores seculares ao período de paz desfrutado pelo Império Romano de o 27 a.C. até 180 d.C. A Pax Romana foi o período mais pacífico que o Império Romano conheceu. Para melhor dizer, foi o período de paz mais longo que o mundo mediterrâneo conheceu desde o começo da civilização europeia até os nossos dias. Durante a Pax Romana, o Império não sofreu uma única invasão bem-sucedida de suas fronteiras. Houve uns poucos motins nacionais, como os dos judeus. Mas não houve guerras civis entre os romanos.

O que foi trouxe a Pax Romana? Os poderosos exércitos de Roma? Não, esses poderosos exércitos ainda existiam nos séculos IV e V quando já não havia paz. E foi nos séculos IV e V que os bárbaros finalmente puderam invadir ao Império de maneira efetiva.

A Pax Romana foi o resultado dos bons governantes desse tempo? Para dizer verdade, durante esse período governaram alguns imperadores muito capazes, tais como César Augusto e Marco Aurélio.

Por outro lado, também encontramos dementes e monstros morais como Calígula, Nero e Domiciano. Entretanto, inclusive durante os reinados destes maníacos, os romanos tiveram paz.

O que, pois, foi realmente o que diferenciou o período da Pax Romana dos outros períodos do Império? Os historiadores seculares não têm uma resposta clara a esse respeito. No entanto, em minha opinião, a diferença estava em que Deus havia introduzido a paz no mundo mediterrâneo; a paz na qual seu Filho, o Príncipe de Paz, havia de nascer. Acho que Deus fez essa paz sem a ajuda de nenhum exército humano. E acho que cristãos posteriormente mantiveram essa paz por meio de suas vidas pacíficas e não-resistentes e mediante suas orações, não por meio do uso da espada para defender o Império.

Mas esta não é simplesmente minha opinião. Os primeiros cristãos que viveram perto do período da Pax Romana também tiveram a firme convicção de que a Pax Romana foi o resultado da intervenção de Deus. Por exemplo, Orígenes disse aos romanos: “Como foi possível que a doutrina de paz do evangelho, a qual não permite aos homens se vingarem nem sequer de seus inimigos, prevalecesse em toda a terra, a não ser que com a chegada de Jesus, foi introduzido um espírito mais meigo na ordem das coisas?”3

Outro escritor cristão primitivo, Arnóbio, escreveu: “Não seria difícil demonstrar que (depois que se escutou o nome de Cristo no mundo) as guerras não têm aumentado. Na realidade têm diminuído em grande parte por serem contidas as paixões violentas. (…) Em consequência disto, um mundo ingrato agora está desfrutando, e desfrutou durante um longo período, de um benefício dado por Cristo. Já que por meio dele, a fúria da crueldade brutal foi debilitada e as mãos hostis começaram a se apartar do sangue do próximo. Na verdade, se todos os homens, sem exceção (…) prestassem atenção por um momento a suas normas pacíficas e proveitosas, (…) o mundo inteiro estaria vivendo na mais pacífica tranquilidade. O mundo teria mudado o uso do aço para usos mais pacíficos e teria se unido em santa harmonia, mantendo intacta a inviolabilidade de todo tratado”.4

A defesa de um país mediante a não-resistência

Na atualidade, muitos cristãos professos criticam os primeiros cristãos por não pegarem em armas e defenderem a seu país. Curiosamente, os pagãos criticavam da mesma maneira aos primeiros cristãos, que se negavam a defender o Império Romano com a espada. Em resposta a estes críticos pagãos, Orígenes escreveu:

Nossas orações derrotam a todos os demônios que provocam a guerra. Esses demônios também fazem que as pessoas violem seus juramentos e perturbem a paz. Por conseguinte, desta maneira, nós somos bem mais úteis aos reis do que aqueles que vão ao campo de batalha para lutar por eles. E também tomamos parte nas causas públicas quando juntamos os exercícios de abnegação a nossas orações e meditações piedosas, as quais nos ensinam a desprezar os prazeres e a não nos deixar levar por eles. De maneira que ninguém luta melhor pelo rei do que nós. Na realidade, nós não lutamos sob seu comando, ainda ele exigisse isso de nós. No entanto, lutamos em seu favor, formando um exército especial, um exército de santidade, por meio de nossas orações a Deus.

E se ele desejasse que “dirigíssemos exércitos em defesa de nosso país”, saiba que isto também fazemos. E não o fazemos com o objetivo de sermos vistos pelos homens ou por vanglória. Já que em secreto, e em nossos corações, nossas orações ascendem a favor de nosso próximo, como se fôssemos sacerdotes. De maneira que os cristãos são benfeitores de seu país mais do que as demais pessoas.5

A completa dependência de Deus funcionou! Tal dependência teve resultados poderosos. Trouxe consigo o mais longo período de paz que já existiu no mundo mediterrâneo desde o começo da civilização. Se pôde funcionar lá contra todos os partidários da guerra do mundo mediterrâneo antigo, também teria funcionado para deter a Hitler. Na realidade, como já discutimos, Hitler nem sequer teria chegado ao poder.

Mas alguém poderia objetar: “Você nunca ouviu dizer ‘a única coisa necessária para o mal prevalecer é os homens bons não fazerem nada’?” Ah, isso é exatamente a essência de todo o problema. Apesar de nossas palavras piedosas sobre a fé e a confiança, a verdade é que a maioria dos cristãos considera o recurso da oração como algo equivalente a não “fazer nada”. Quer admitam ou não, a maioria dos cristãos acha que se não pegarem em armas para deter o mal, nenhuma outra coisa o deterá.

Mas, e se hoje todos os que afirmam ser cristãos vivessem de uma maneira não-resistente, amando a seus inimigos? E se a Igreja toda sinceramente pusesse sua fé em Deus como o Protetor do gênero humano, e realmente cresse na eficácia da oração? A igreja fez isto nos três primeiros séculos, e o resultado foi paz no mundo em que viviam. Não tenho a menor dúvida de que teríamos uma nova Pax Europa ou Pax Americana se a Igreja fizesse o mesmo hoje.

O mal nunca poderá ser derrotado com o mal, como também nenhum erro pode se corrigir com outro erro. Satanás não pode ser jogado fora pelos meios de Satanás. Seguir os ensinamentos de Cristo é a única resistência eficaz contra o mal.

P. Mas, não é verdade que as palavras de Jesus se referem somente à vingança realizada no nível individual, e não às ações apoiadas pelo Estado?

Alguns cristãos sustentam que pagar mal por mal como indivíduos é incorreto. No entanto, se o fizermos sob a autoridade do Estado, não violamos o ensinamento de Jesus. Este argumento faz-me pensar no folheto escrito por Adin Ballou, intitulado How Many Men Are Necessary to Change a Crime into a Virtue?(“Quantos homens são necessários para transformar um crime numa virtude?”) No mesmo, ele pergunta:

Quantos são necessários para anular os mandamentos de Deus e tornar legítimo algo que ele proibiu? Quantos são necessários para metamorfosear a maldade em justiça? Um homem sozinho não deve matar. Se o fizer, comete assassinato. Dois, dez, cem homens não devem matar. Se o fizerem, continua sendo assassinato.

Mas um estado ou país pode matar a tantos que desejar, e não é assassinato. É justo, necessário, louvável. É só conseguir bastantes pessoas que estejam de acordo, e a matança de milhares de seres humanos é perfeitamente justificável. Mas, quantos são necessários? Essa é a pergunta.

O mesmo se dá como o furto, o roubo, o arrombamento e todos os outros delitos. O sequestro é um grande delito para um homem ou para uns poucos homens. Mas uma nação inteira pode fazê-lo, e o ato não só se torna inocente, mas também altamente honrável. De modo que a nação como um todo pode roubar em grande escala e perpetrar uma pilhagem numa cidade por meio do poder militar, sem cometer delito. Eles podem fazer todas estas coisas com impunidade, e convocar os ministros da religião para que orem por eles. Verdadeiramente há uma magia nas grandes quantidades! A multidão soberana pode passar por cima das leis do Todo-poderoso, pelo menos em sua própria presunção. Mas quantos são necessários?6

Se o estado me ordenasse a adorar ídolos, seria correto? Em outras palavras, seria errado eu adorar ídolos como indivíduo, mas que, por outro lado, seria completamente correto que adorá-los sob a autoridade do Estado? Seria errado praticar a adivinhação como indivíduo, mas aceitável se o fizesse sob a autoridade do Estado? Seria pecado se eu cometesse adultério como indivíduo, mas correto se o Estado me ordenasse a cometê-lo? O divórcio incorreto para mim como indivíduo, mas completamente legítimo se o Estado me autorizar a me divorciar de meu cônjuge?

Ou suponhamos que um cristão viva num país onde o governo obriga às mulheres a praticar abortos para o bem do país. Talvez o país esteja superpopulado e o governo decide que a melhor maneira de frear a superpopulação é mediante a redução da taxa de natalidade. Seria, pois, lícito que uma mulher cristã assassinasse o seu bebê por meio de um aborto? Se não é, que diferença há quando o mesmo governo ordena a seus cidadãos que vão à guerra e assassinem os outros?

Quando Jesus deu seus mandamentos sobre a não-resistência e o amar a nossos inimigos, será que fez alguma distinção entre as ações iniciadas pelos indivíduos e as ações respaldadas pelo Estado? De jeito nenhum. A verdade é que seu ensinamento estava substituindo uma lei do Antigo Testamento que em si estava relacionada às ações do Estado, não às privadas. Como você recordará, Jesus começou sua mensagem sobre a não-resistência dizendo: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal” (Mateus 5:38–39). Pois bem, onde seus ouvintes tinham ouvido as palavras “olho por olho, e dente por dente”? Na lei mosaica, onde aparecem em três ocasiões.

A primeira passagem onde se encontra essa expressão aparece em Êxodo, onde diz: “Se alguns homens pelejarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e julgarem os juízes. Mas se houver morte, então darás vida por vida, Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Êxodo 21:22–24). Veja bem que os juízes estavam envolvidos nesta ação; não se tratava de uma vingança individual.

A segunda passagem encontra-se em Levítico, com relação a um incidente onde um homem nascido de pai egípcio e mãe israelita tinha blasfemado contra Deus. Quando os israelitas perguntaram a Deus o que deveriam fazer, ele lhes respondeu: “E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará (…). E quem matar a alguém certamente morrerá. (…) Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará. (…) E disse Moisés, aos filhos de Israel que levassem o que tinha blasfemado para fora do arraial, e o apedrejassem” (Levítico 24:16–23). Acaso esta passagem fala de ações individuais? Jamais! Toda a congregação de Israel devia estar envolvida na administração do castigo.

A última passagem encontra-se em Deuteronômio: “Quando se levantar testemunha falsa contra alguém, para testificar contra ele acerca de transgressão, Então aqueles dois homens, que tiverem a demanda, se apresentarão perante o Senhor, diante dos sacerdotes e dos juízes que houver naqueles dias. E os juízes inquirirão bem; e eis que, sendo a testemunha falsa, que testificou falsamente contra seu irmão, Far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e assim tirarás o mal do meio de ti. (…) O teu olho não perdoará; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Deuteronômio 19:16–21). Uma vez mais, esta passagem não se refere a uma forma individual de justiça. Tanto os sacerdotes como os juízes estavam envolvidos.

Portanto, o contexto do ensino de Jesus sobre a não-resistência era o castigo judicial e nacional, e não a vingança individual. Afinal, a regra de “olho por olho” se aplicava a esse contexto. E o ensino de Jesus substituiu essa regra.

P. Mas, não podemos ter duas personalidades? Quando visto o uniforme do exército e faço parte do exército dos Estados Unidos, não sou eu, o indivíduo, quem mata. É o governo dos Estados Unidos. E o governo dos Estados Unidos recebeu a espada de Deus, conforme Romanos 13.

Este argumento parece plausível só porque a maioria dos cristãos ainda não é capaz de ver o reino de Deus como um governo existente e verdadeiro.

Como ilustração, suponhamos que um cidadão norte-americano estivesse morando na Alemanha nos anos 1930. E depois suponhamos que o exército alemão o recrutasse. (Sim, os governos têm o poder de recrutar a residentes que não sejam cidadãos.) Digamos que este norte-americano aceitou ser recrutado pelo exército alemão e que posteriormente mata seus concidadãos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Finalmente, suponhamos que depois fosse capturado pelas forças norte-americanas e levado a julgamento.

Suponhamos que em seu julgamento este norte-americano apresentasse a seguinte defesa: “Eu sei que teria sido incorreto que eu, como cidadão norte-americano, tomasse armas contra meus concidadãos. No entanto, fui recrutado pelo exército alemão e não foi mais eu, o cidadão norte-americano, quem matou a outros norte-americanos. Foi o governo alemão que estava fazendo uma guerra lícita contra os Estados Unidos”.

Você acredita que o povo e o governo dos Estados Unidos aceitariam esse pretexto? Claro que não! Então, por que imaginamos que Jesus aceitaria semelhante alegação?

Uma situação parecida com a minha ilustração aconteceu há pouco tempo na vida real. Anos atrás, o governo dos Estados Unidos realizou uma guerra contra o regime talibã do Afeganistão. Durante a guerra, o exército dos Estados Unidos capturou um cidadão norte-americano chamado John Walker Lindh, o qual se aliara aos soldados talibãs. Agora bem, suponhamos que o senhor Lindh tivesse feito a seguinte defesa em seu julgamento:

“Eu, John Walker Lindh, como indivíduo e cidadão norte-americano, nunca faria nada que prejudicasse a outro norte-americano. Sim, é verdade que me uni ao exército talibã. Mas quando me aliei, eles não estavam em guerra com os Estados Unidos. Qualquer ação que eu tenha realizado após isso não foi minha, mas do governo talibã. Eu não lutei contra os Estados Unidos como indivíduo. Simplesmente lutei como parte do governo talibã. Portanto, sou inocente.”

Você acredita que um tribunal norte-americano teria aceitado isso? Acho que não.

Os cristãos que rejeitam a não-resistência, para todos os efeitos estão desejando que Jesus se subjugue a César. Eles querem que Jesus reconheça que suas leis podem ser violadas se César exigir isso das pessoas. Mas, estaria César disposto a fazer o mesmo? Será que César permite que violemos suas leis se Jesus o exigir?

Em resposta a essa pergunta, suponhamos que o senhor Lindh tivesse feito a seguinte defesa: “Eu, John Walker Lindh, o cidadão norte-americano, nunca faria nada que prejudicasse a outro norte-americano. Logicamente, isso seria incorreto! Se eu lutei contra os Estados Unidos no Afeganistão, o fiz simplesmente como John Walker Lindh, o muçulmano. Minha fidelidade a Alá exige-me que mate a todos os infiéis. Portanto, como membro do Islã, eu matei os norte-americanos. Mas fiz isto simplesmente como parte da comunidade islâmica internacional, não como indivíduo, nem como norte-americano. Portanto, sou inocente.

O que você acha? Teria servido tal defesa? Claro que não. O governo dos Estados Unidos não permite a seus cidadãos, independentemente de suas crenças religiosas, que se matem uns aos outros. Se alguém matar a outro norte-americano, será acusado de assassinato. O fato de sua religião exigir esse procedimento não servirá de desculpa.

Se nosso governo não permite a seus cidadãos matarem uns aos outros devido a suas diferenças religiosas, por que supomos que Jesus permite que seus cidadãos matem uns aos outros devido a diferenças políticas ou nacionais?

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